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Manual de reprodução em cativeiro de aves de presa

Existem muitas ocupações ou profissões que é possível desempenhar com sucesso sem o mínimo de vocação, contudo, não considero sequer possível a sobrevivência profissional desta actividade sem uma orientação vocacional muito vincada.

Embora, obviamente acredite na rentabilidade desta actividade, como iremos ver no ponto seguinte, não considero possível esta rentabilidade sem uma grande dose motivacional e uma grande paixão por estas aves.

Como acontece com outras paixões, não entendemos a sua génese, contudo contrariamente a outras paixões, nesta, os mecanismos de racionalização que possamos utilizar para a entender têm uma função amplificadora: quanto mais compreendemos o comportamento destas aves mais as admiramos.

O meu fascínio pelas aves em geral, começou na minha infância e adolescência tendo mesmo reproduzido em cativeiro algumas aves silvestres, como a trepadeira azul (sitta europea) e o chapim real (parus major); sucesso este muito difícil de conseguir; pois tratando-se de aves insectívoras, as dificuldades são sempre acrescidas.

O meu primeiro contacto com  aves de presa, deu-se também na minha juventude, numa localidade Beirã, chamada Freixinho, onde tive oportunidade de começar a entender que estas aves podem ser treinadas para caçar; mais tarde, no período de 1972-1974, na Guiné tive oportunidade de tratar de um Bufo Africano (Bubo africanus) que me entregaram ferido e depois de o recuperar, efectuei alguns treinos com o objectivo de o muscular antes da sua libertação.

Em 1979, após concluir a minha licenciatura em Psicologia, comecei a interessar-me pelo comportamento das aves de presa, tendo participado em seminários e cursos de pós graduação na área da Etologia.

A partir desta altura comecei a trabalhar voluntariamente na Recuperação de Aves de Presa através do Grupo de Trabalho Mundial de Aves de Rapina (WWGBP) e da AÇOR- Associação Científica para a Conservação das Aves de Rapina, da qual fui dirigente.

A partir de 1983 comecei a dar os meus primeiros passos na Reprodução em Cativeiro de Aves de presa, fundando o CENTRO FALCO – Associação Científica para a Reprodução de Aves de presa, desempenhando a função de Presidente e alcançando os meus primeiros sucessos na reprodução destas aves, primeiramente numa perspectiva essencialmente conservacionista, reintrodução e reforço populacional de espécies, posteriormente também numa perspectiva de lazer, produzir aves para a prática da falcoaria para uso pessoal e de outros associados do Centro Falco.

A partir de 1995 os objectivos da Reprodução em cativeiro centraram-se essencialmente na produção de aves para o Controlo de Fauna dos Aeroportos de Lisboa e Faro, nos quais desempenhei as funções de Responsável pelo Controlo de Fauna durante onze anos e mais recentemente, a partir de 2003, os objectivos da produção de aves de presa adaptaram-se essencialmente aos seguintes objectivos:

  1. Produção de águias reais (aquila chrysaetus homeyeri) em colaboração com o ICNB para reintrodução no norte do país.
  2. Produção de grandes falcões para exportação para o Médio Oriente
  3. Produção de Açores e Falcões de pequeno porte para fornecer as necessidades dos falcoeiros europeus

Ao longo de todos estes anos, embora com algumas interrupções,  tive como desporto de eleição a falcoaria, praticada quase sempre com aves que fui produzindo.

O meu sucesso na reprodução abarca um número significativo de espécies e várias subespécies, das quais destaco:

Aves de Presa noturnas: Coruja das Torres (tyto alba) , Coruja do Mato (strix aluco), Mocho galego (athene noctua), Bufo real (bubo bubo), Bufo de Orelhas (asio otus) e Bufo Nirval (nictea scandiaca)

Águias: Águia real (aquila chrysaetus) e Águia calçada (hieraaetus pennatus)

Accipiteres: Açor (accipiter gentilis) e Gavião (accipiter nisus)

Falcões: Peneireiro (falco tinunculus), Lagar (falco jugger), Lanário (falco biarmicus), Sacre (falco cherrug), Gerifalte (falco rusticolus) , Peregrino Ibérico (falco peregrinus brookei), Peregrino escocês (falco peregrinus peregrinus), Peregrino pealei (falco peregrinus pealei) Tagarote (falco pelegrinoides pelegrinoides) , Shain (falco pelegrinoides babylonicus), Peregrino africano (falco peregrinus minor) e hibrídos destas espécies.

Outros: Águia de asa redonda (buteo buteo) , Harris (parabuteo unicinctus), Milhafre preto (milvus migrans) e Milhafre real (milvus milvus).

Faço esta introdução para facilitar o enquadramento do leitor nos pontos subsequentes e entender que o conhecimento que vou transmitir é essencialmente um conhecimento prático, obviamente teorizado ao longo de muitos anos mas tendo como base, essencialmente uma aprendizagem de tentativa e erro.

O objectivo deste manual é de fornecer ao futuro criador a minha perspectiva da reprodução em cativeiro de aves de presa, focando várias aves e técnicas, contudo pressupõe um conhecimento mínimo e genérico da biologia das aves e de alguns conhecimentos, embora rudimentares, de incubação.

As ajudas técnicas que recebi ao longo de todos estes anos, foram muito poucas, pois a abertura de espírito actualmente existente contrasta bastante com a que existia há duas dezenas de anos; contudo não quero deixar de sublinhar o nome de três criadores que foram as únicas pessoas que responderam abertamente às minhas dúvidas: Steeve Sherrod dirigente do Peregrine Fund, que há cerca de vinte anos, visitou o meu centro de cria e respondeu sem hesitações a todas as questões que lhe coloquei; mais recentemente, há cerca de quatro anos Andrew Knolwsbrown da Escócia, esclareceu as minhas dúvidas sobre a perca de peso necessária para os ovos das águias reais o que culminou no nascimento da minha primeira cria de águia real e finalmente, Jim Nelson dos EUA , também  no mesmo ano, transmitindo-me conhecimentos preciosos para a incubação de ovos problemáticos; a eles o meu mais sincero agradecimento e respeito.

Se a ajuda técnica foi reduzida, o mesmo não posso dizer do apoio físico e afectivo de muitas pessoas que ao longo dos anos não me deixaram esmorecer nos maus momentos, quer pela sua amizade, quer pelo seu apoio físico real, vindo visitar o centro, vezes sem conta, só com um objectivo, ajudar sem nunca pedir nada em troca; indo desde as simples tarefas administrativas, à limpeza do centro mas também à manutenção e construção dos viveiros de reprodução.

Não posso deixar passar em branco a oportunidade de agradecimento público, primeiramente à minha mulher Paula, por toda a paciência ao longo de todos estes anos e ao meu filho Ricardo por toda a ajuda dada a este projecto, passando inúmeros fins de semana na construção dos viveiros em vez de outras actividades, bem mais interessantes e próprias da sua juventude.

Agradeço, profunda e sinceramente aos amigos: Ana e Samuel Lourenço, Zé e Fernando Flores, Ana e Rui Martins , Rui Gaspar, Francisco Gouveia e  Emídio; os meus agradecimentos também a todos os associados da AÇOR –Associação Científica para a Conservação das Aves de Rapina, pelo seu constante apoio ao meu projecto, dos quais quero salientar, o Luis Filipe Oliveira, Mariano Velhinho, João Rodrigues, José Encarnação e Acácio Machado.

a eles e a todos os que voluntariamente participaram neste projecto sem querer nada em troca, e que já não recordo os nomes, o meu muito obrigado.

Apesar de eventualmente termos uma grande paixão pelas aves de presa, penso que é um erro crasso, iniciarmos qualquer projecto de reprodução sem efectuar uma aprofundada análise do mercado, pois o projecto iria tornar-se obviamente desastroso a médio ou longo prazo.

Não me refiro obviamente ao falcoeiro que tente criar com um casal de peregrinos ou açores para suprir as suas próprias necessidades, mas sim à reprodução com fins comerciais.

É importante termos presente que esta actividade é uma actividade a tempo inteiro, doze a quinze horas diárias, sem fins de semana e muitas vezes sem férias, a não ser que seja desempenhada por duas pessoas com motivação idêntica, pois caso contrário será muito difícil encontrar um colaborador com sensibilidade, responsabilidade e espírito de sacrifício suficientes para nos pudermos ausentar sem preocupações.

Embora a época de reprodução seja essencialmente no 1º semestre do ano e ser de facto a época de maior trabalho, não nos podemos esquecer de todas as tarefas de manutenção e construção que terão que ser desempenhadas no segundo semestre.

Além destas questões é necessário considerarmos que estamos a abraçar um estilo de vida diferente do comum com todas as vantagens e desvantagens da vida fora dos grandes centros urbanos.

Significativos são também os custos financeiros necessários à construção de viveiros, aquisição de equipamentos e alimentação das aves.

Fazendo umas breves contas a custos actuais (2009) diria que os custos estimados para um projecto de muito pequena dimensão, 8 casais de aves do mesmo género, por exemplo, peregrinos pealei, enfrentaríamos os seguintes custos:

1

Construção de 10 viveiros (8 p/ casais reprodutores + 1 p/ instalar os juvenis + 1 p/ mudarmos cada casal enquanto procedemos à manutenção anual)

 60.000
 2  Aquisição de 8 casais  20.000
 3  Equipamento (Rep+CCTV)  15.000
 4  Instalações de Apoio (Incubação, Laboratório, etc)  Não contabilizado
   Investimento total
 95.000
 5  Amortização Anual (10 anos s/juros)  9.500
 6  Custo Anual de Alimentação e veterinária  7.000
 7  Custos de Energia, água e Comunicações  4.000
   Despesa mínima anual
20.500

Atendendo a que durante os primeiros 4 anos a nossa produção seria nula por as nossa aves ainda não terem atingido a maturidade sexual (não aconselho a aquisição de aves adultas, a não ser que acreditemos piamente no criador) e tendo como base o rácio de sucesso reprodutivo de 2:1, isto é em cada 2 casais só um é que produz, o que segundo a minha experiência é um rácio bastante bom, e calculando que cada casal reprodutor produziria uma média de 5 juvenis, teríamos a seguinte conta de demonstração de resultados:

ANO

 RECEITA DESPESA SALDO  ACUMULADO
 1  0  20.500  -20.500 -20.500
 2  0  20.500  -20.500  -41.000
 3  0  20.500  -20.500  -61.500
 4  0  20.500  -20.500  -82.000
 5  50.000  20.500  29.500  -59.500
 6  50.000  20.500  29.500  -30.000
 7  50.000  20.500  29.500  -9.500
 8  50.000  20.500  29.500  20.500

Este tosco exercício, que assustaria qualquer financeiro pela sua falta de rigor, pois não incluí muitas despesas nem entra em conta com encargos financeiros e outras variáveis, sendo também muito optimista na previsão de receitas, tem como único objectivo realçar as seguintes questões que considero fundamentais para a elaboração da análise do Investimento, tais como:

  1. Só a partir do 4º ano é que é possível a existência de receitas, começando a diminuir o prejuízo.
  2. O retorno do Investimento só vem, sensivelmente a partir do 7º ano.
  3. Os custos fixos e de Investimento em Instalações e Equipamento, são os mesmos, independentemente do valor das aves, o que nos leva a concluir que podemos usar esta variável, trabalhando com espécies mais ou menos valiosas conforme as nossas de necessidades temporais de atingir o retorno do investimento.

Há cerca de 15 anos, estava em casa de um amigo em Espanha, Diego Pareja Obregon e assisti ao nascimento do 1º Harris ( parabuteo unicinctus ) na península Ibérica, o interesse foi tal por parte da comunidade de falcoeiros, que imediatamente surgiram várias dezenas de interessados, causando muitos dissabores ao Diego por não poder satisfazer todos os pedidos.

Uns anos mais tarde, na minha anual ida ao “Sky Trial” em Ecija, Espanha, levei comigo um peneireiro americano ( falco spaverius ) que tinha adquirido há poucos dias, imediatamente fui rodeado de dezenas de curiosos interessados em adquirir aves iguais a qualquer preço.

Refiro estes dois episódios, pois hoje, alguns anos depois, qualquer destas aves baixou o seu valor cerca de 10 vezes em oposição por exemplo ao peregrino, ao gerifalte ou ao açor que mantêm o seu valor quase inalterado há muitos anos, embora haja cada vez maior cuidado na selecção de cada individuo.

Estas ocorrências levam-nos a constatar que passado o efeito de surpresa, tanto o Harris como o peneireiro americano deixaram de ter o interesse comercial que tinham embora sejam duas aves com excelentes características de caça, o motivo é só um: são bastante fáceis de reproduzir em cativeiro, ultrapassando a oferta largamente a procura.

No tocante aos peregrinos, gerifaltes e açores, tiveram os seus momentos em que foram preteridos por outras aves com maior efeito de novidade mas acabam sempre por ocupar o seu lugar preferencial no mercado, pelo motivo principal de: nunca poderem ser reproduzidos em grande quantidade mantendo os mesmos padrões de qualidade.

Refiro estas situações para evitar que o candidato a criador enverede por caminhos fáceis com a consequente falência do seu projecto a curto ou médio prazo.

É minha opinião, que sem ter o escoamento da sua produção contratualmente garantida por vários anos a única possibilidade de sucesso é produzir aves com um grau elevado de dificuldade de reprodução e mesmo estas têm que apresentar uma qualidade muito superior à média.

Considero também o mercado do Médio Oriente como um mercado de excelência e um mercado em que o criador pode enviar a sua melhor produção sem correr o risco de que concorram futuramente consigo com a descendência das aves que transaccionou.

Não quero entrar em pormenores sobre as espécies de aves que considero actualmente interessantes para integrar um projecto de reprodução em cativeiro, mas será fácil de perceber que não devem ser muito distintas, por razões óbvias, das que actualmente reproduzo, podendo ser facilmente visualizáveis neste site.

Acredito que a chave de qualquer projecto de cria, assenta essencialmente numa criteriosa selecção dos futuros reprodutores.

Independentemente da espécie e indivíduo a adquirir, considero importante a aquisição junto a um criador com provas dadas e nunca a um intermediário, podendo deste modo obter uma informação mais fidedigna sobre a genética de determinado indivíduo.

Apesar da documentação existente sobre cada indivíduo, a aquisição de uma ave a um criador com credibilidade internacional, é ainda a melhor garantia de adquirir a ave correcta.

Muitas vezes é possível traçar determinados indivíduos até à sua origem no estado selvagem (F0) tendo também toda a informação do desempenho de alguns indivíduos ao longo das várias gerações.

À semelhança daquilo que acontece na reprodução em cativeiro de outros animais (cães, cavalos, etc.) começam a surgir os primeiros livros de origem (Stud Book) de determinadas espécies, como é o caso do falcão tagarote (falco pelegrinoides pelegrinoides) em:

www.avianmanagement.com/barbary_falcon_studbook.htm

Sempre que possível deverá adquirir os seus reprodutores de 1ª Geração (F1) ou de 2ª Geração (F2).

Alguns criadores foram autorizados a criar a partir de aves selvagens irrecuperáveis, podendo transaccionar aves de 2ª geração em cativeiro o que só por si é uma garantia para o seu projecto de cria.

Se optar pela reprodução natural, além dos cuidados referidos em 3.0 penso também ser importante, seleccionar sempre que possível aves provenientes de casais que reproduzam naturalmente, assim haverá mais hipóteses dessa característica genética ser transmitida em toda a sua plenitude à descendência e consequentemente aumentar as sua possibilidades de sucesso no futuro.

O recurso exagerado à Inseminação Artificial (IA) irá certamente limitar a possibilidade de reprodução natural, num futuro não muito longínquo; à semelhança do que acontece actualmente com diversas espécies de aves (galinhas, codornizes, etc.) que já perderam todas as suas capacidades de reprodução natural).

Após estes primeiros cuidados, considero fundamental visitar o centro de cria e só reservar o indivíduo que pretende, depois de analisar bem as características físicas dos progenitores; É relativamente simples diferenciar uma ave saudável de outra, quer pela sua pose, quer pelo brilho dos seus olhos, assim como, por uma rápida observação do seu comportamento; se tiver dificuldades em ver estas diferenças peça a um amigo, que seja falcoeiro, para o acompanhar na visita ao centro de cria; será sempre uma mais valia importante para a sua decisão.

Depois de seleccionar os pais da sua futura ave, deve solicitar ao criador o respectivo nº de anilha das aves, números esses que aparecerão registados na documentação oficial da sua ave, na caixa 4 do certificado Cites.

Após a respectiva reserva, deverá manter um contacto com o criador e pedir-lhe que o informe da data de nascimento da ave que encomendou e confirmar, caso considere importante, o método de cria que está a ser utilizado assim como o nº de anilha que foi atribuído à sua ave; normalmente as aves são anilhadas pelo 13º dia, altura em que, salvo raras excepções, é possível distinguir o sexo.

Se possível e se viver relativamente perto do centro de cria, deverá poder acompanhar algumas fases essenciais da sua evolução, como a constatação da sua alimentação pelos progenitores, assim como o momento em que é transferida para um viveiro de crias e onde irá interagir com outros indivíduos do mesmo género.

Alguns criadores menos honestos, colocam as crias das aves mais valiosas a serem alimentadas por indivíduos de outra espécie, deste modo a ave juvenil adquire a impregnação da outra espécie, nunca reconhecendo a sua própria espécie e consequentemente nunca reproduzindo em cativeiro.

Penso que uma ave (falcão ou açor) deverá ser retirada dos seus pais com cerca de 45 dias e deverá estar, no mínimo mais 15 dias num viveiro de crias, para ganhar a sua independência interagindo com outros indivíduos.

Se tiver oportunidade de treinar a sua ave e caçar com ela é sempre um valor acrescentado para o seu projecto por 2 razões fundamentais:

  • Retirar grande parte do stress à ave, aumentando deste modo as possibilidades de reprodução natural.
  • Ter a possibilidade de só incluir a ave no seu projecto de cria, se confirmar a estabilidade do seu carácter e os seus dotes de caça. (este é um dos motivos porque tantas aves são vendidas por intermediários).

Se os reprodutores a adquirir forem aves impregnadas com o objectivo de reproduzirem por Inseminação Artificial voluntária (IAV) no futuro, considero importante, além de todos os cuidados necessários de selecção dos indivíduos, conforme referido no artigo anterior anterior que o criador se comprometa a efectuar a impregnação individual da ave, tendo o cuidado de a criar sem que esta possa visualizar outras aves e que receba o máximo de socialização possível com o ser humano e com todo o ambiente familiar que o rodeia.

A situação ideal seria a ave ser recolhida pelo comprador, o mais cedo possível, 12 a 15 dias de idade e que a partir daí acompanhe o seu novo dono na grande parte das suas actividades diárias.

O Importante nesta fase é que a ave se familiarize com todo o tipo de estímulos exteriores e que se possível possa caçar ou pelo menos voar livremente durante os seus primeiros meses de vida, sobre a impregnação de aves de presa, aconselho o livro de McDermont, “The Imprint Accipiter“.

Depois de terminada a sua época de caça, será instalada na sua “muda” ou viveiro de reprodução, onde ficará até ao fim da sua vida, sendo então treinada a reproduzir artificialmente; treino este que será referido no capítulo 7. Reprodução artificial.

Independentemente do género de ave de presa e do modo de reprodução que iremos adoptar, existem determinadas características comuns que especificarei aqui, detalhando nos pontos subsequentes as especificidades comuns às várias espécies e ao tipo de reprodução.

As instalações que referirei são apropriadas a climas temperados, como o da Península Ibérica e destinados a espécies europeias, devendo portanto serem efectuadas as respectivas adaptações quando pretendamos instalar espécies autóctones de zonas climáticas muito distintas das nossas.

A orientação dos viveiros (ninho) deverá ser a sul, ou quando tal não seja possível, pelo menos entre o Sul e o Nascente.

O local deverá ser o mais sossegado possível para as aves de cria natural, não sendo esta característica importante para as aves com “impregnação humana “

O formato dos nossos viveiros deverá ser rectangular, tendo o comprimento, sensivelmente o dobro da extensão da largura.

O material de eleição por excelência é a alvenaria, tijolo e reboco, devendo o reboco interior ser o mais liso possível para evitar ser abrasivo e danificar a plumagem das aves, viveiros em madeira não devem ser considerados por várias razões, da qual destaco como mais importante, a impossibilidade de desinfecção com eficácia, o chão deverá ser cimentado tendo evidentemente o respectivo escoamento para as águas pluviais; deve ter-se especial cuidado com o chão, colocando primeiro uma camada de pedra de enroncamento, seguida de uma camada de brita, seguidamente a colocação de um plástico e só depois se cimentará utilizando uma mistura de cimento e areia do rio, excluindo o saibro; a função do plástico é evitar que a água da argamassa se perca demasiado rapidamente, criando zonas mais fracas e passíveis de constituírem entradas para ratazanas.

Num dos lados de um dos extremos do viveiro deverá ser construída uma banheira com cerca de 30 cm de altura e um diâmetro de 100 cm para as águias, 20 cm de altura e 60 cm de diâmetro para grandes falcões e accipiteres e 10 cm de altura para pequenos falcões e accipiteres; esta banheira deverá poder ser operacionalizada a partir do exterior e deverá também estar localizada longe de qualquer poleiro ou plataforma, evitando deste modo que possa se contaminada com fezes.

No mesmo extremo, mas no lado oposto, deverá ser efectuado um orifício de cerca de 10 com de diâmetro para deitar o alimento às aves, é bastante prática a utilização de uma curva para tubo hidronil de 11cm e com uma curvatura de 45º; deveremos ter também o cuidado de colocar algo onde possa cair a comida, evitando que esta caia directamente no solo contaminando-se; eu utilizo para o efeito um caixote de plástico para a fruta, que é obviamente colocado com a parte aberta para baixo, de modo que a comida caía em cima, à semelhança da banheira é também importante que fique longe de poleiros ou plataformas, para a comida não ser contaminada com fezes. Finalmente, devemos cobrir o fundo do viveiro com calhau rolado com pedras de pequena dimensão (cerca de 1 cm de diâmetro) até cerca de 5cm do bordo da banheira; este é até ao momento o melhor material para cobrir o solo de um viveiro.

As paredes interiores do viveiro poderão ser rebocadas com um reboco liso, contudo, caso existam possibilidades financeiras, deveriam ser revestidas a azulejo; este investimento deveria ser considerado um investimento e não um custo, pois irá futuramente facilitar grandemente as tarefas de limpeza, como irei detalhar no capítulo 8. Manutenção de um centro de cria e irá, além disso evitar o acesso de roedores pela rede do viveiro.

As paredes exteriores poderão ser simplesmente salpicadas de reboco, o que irá permitir uma melhor aderência das trepadeiras às paredes exteriores o que dá um aspecto bastante natural ao nosso viveiro, eliminando os custos de manutenção com a pintura.

O tecto do viveiro deverá ter dois tipos de cobertura, rede plastificada de malha elástica e telha.

A telha deverá cobrir cerca de um terço do viveiro, começando na parede oposta à da alimentação e nos restantes dois terços, deverá ser de malha de rede plastificada com 5 centímetros de malha; esta malha é suficiente para a maioria das espécies; esta rede deverá ser muito bem esticada e absolutamente paralela ao solo, evitando assim a tendência de as aves se pendurarem na mesma.

Finalmente, na parede traseira, junto à cobertura de telha, deverá existir uma porta de acesso ao viveiro com um visor, de modo a poder ser monitorizada a quantidade de comida a fornecer às nossas aves; este acesso ao viveiro deverá ser efectuado através de um corredor, também com uma porta de acesso, evitando deste modo surpresas desagradáveis com a eventual fuga de alguma ave.

Todas as superfícies onde as aves normalmente descansem, bordo da plataforma do ninho, poleiros e plataformas, deverão estar cobertas com relva artificial, mais conhecida por astro turfa e tendo como nome artificial “ FINTURF”; deste modo as “mãos “ das nossas aves ficam sempre com uma camada de ar a circular por baixo, facilitando o processo de cicatrização das normais feridas que possa provocar a si mesma.

A distribuição dos poleiros ou plataformas, janelas e ninho dependerão do tipo de ave e modo de cria, motivo pela qual serão tratados separadamente.

As dimensões que considero adequadas para a reprodução de todo o tipo de águias é um viveiro com 9 metros de comprimento, 5 metros de lado e 4,5 metros de altura.

Debaixo da parte coberta com telha, é efectuada uma plataforma com 1,5 metros de lado e a toda a largura do viveiro; esta plataforma, deverá ter um ponto para escoamento das águas e ser coberta com calhau rolado com cerca de 0,5 centímetros e com uma profundidade de pelo menos 15 cm; ao longo de toda esta plataforma deverá existir uma protecção, normalmente um barrote de madeira; do topo deste barrote ao calhau rolado deverá existir uma altura de cerca de 20 centímetros e do topo do barrote ao tecto do viveiro deverá haver uma altura de 2 metros, permitindo assim que o casal possa copular sem bater com as pontas das asas no viveiro.

Na parede frontal e no centro da mesma, deverá existir uma janela com cerca de 60 centímetros de largura por 30 de altura, constituída essencialmente por barras verticais, distanciadas cerca de 3 centímetros umas das outras e com a possibilidade de ser totalmente fechada, caso as aves se mostrem demasiado inquietas, durante a época da cria.

Considero importante a existência da janela para o equilíbrio psíquico destas aves em cativeiro.

Na base da janela, deverá existir uma plataforma, para as águias poderem estar, respeitando-se, pelo mesmo motivo os dois metros da plataforma ao topo do viveiro; esta plataforma deve estar afastada da parede frontal cerca de um metro minimizando deste modo o contacto da plumagem com as paredes dos viveiros; normalmente esta distância é conseguida, apoiando a plataforma sobre dois tubos colocados na parede frontal, a um ângulo de quarenta e cinco graus.

Finalmente, de verá ser colocado um tronco com um diâmetro de cerca de trinta centímetros e um metro de comprimento, no centro do viveiro e mantido por dois suportes verticais a cerca de um metro do solo.

Este tronco é de extrema importância pois motiva os chamados “fly-by “ ou voos estimulantes à actividade reprodutora; na minha experiência, só comecei a ter sucesso com a reprodução das águias, depois de ter introduzido este pormenor.

Em relação aos falcões, mantêm-se quase a mesma estrutura, com as devidas adaptações de acordo com a dimensão.

Dimensão de 6 metros de comprimento por 4 metros de lado e 4 de altura e distancia das plataformas e borda do ninho de 120 centímetros ao topo do viveiro.

Esta dimensão deverá ser seguida não só para os grandes falcões mas também para os pequenos, como o esmerilhão (falco columbarius) que apesar da sua pequena dimensão, parecem beneficiar de uma grande área para se reproduzirem em cativeiro.

Além desta alteração, considero conveniente uma plataforma no centro de cada uma das paredes laterais e a uma distância de 60 centímetros das mesmas.

A janela também poderá ter uma dimensão inferior, trinta centímetros de largura por vinte de altura é suficiente.

Contrariamente aos falcões que com pequenas excepções ficam no estado selvagem juntos todo o ano, as aves do género accipiter são bastante mais independentes, juntando-se o casal somente na época de reprodução.

Por este motivo, devemos respeitar e compreender a sua biologia, permitindo deste modo a sua separação sempre que o entendam.

Tendo esta situação como base, utilizo para estas aves um viveiro para o macho e um viveiro para a fêmea, dispostos lado a lado; as dimensões que considero razoáveis para cada um são sete metros de comprimento, três metros e meio de lado e três metros e meio de altura.

Estes viveiros são separados longitudinalmente por uma parede opaca até um metro e meio de altura, com excepção da parte onde iremos colocar o ninho que ficará opaco até ao topo; o resto desta parede será de rede ou barras verticais, com uma abertura na parte da rede, de cerca de sessenta por quarenta centímetros, onde será colocada uma janela de correr de modo a poder ser accionada do exterior.

Os poleiros para os accipiteres nunca serão colocados na parede central, evitando assim tentativas de agressões que só iriam aumentar a agressividade entre o casal.

Normalmente só coloco um poleiro no extremo do viveiro e outro no centro e o ninho que neste caso não é mais do que uma mesa com um metro de lado e com um rebordo de cinquenta centímetros e colocada a um metro do solo e na zona coberta por cima e lateralmente; este refúgio é de extrema importância para o macho que se pode alimentar calmamente sem ser intimidado pela fêmea.

No caso dos accipiteres costuma também colocar a porta de acesso no lado oposto ao ninho, incomodando deste modo, o mínimo possível, estas aves tão nervosas.

A utilização da janela de correr, será referida mais em pormenor no Capítulo 6. Reprodução natural de aves de presa

Finalmente, penso ser importante que a habitual janela frontal, tenha uma dimensão bastante pequena, dez centímetros por quatro parece-me suficiente para poderem ver o exterior e não se danificarem batendo nesta; nestas aves é fundamental que se encerre a janela durante a época da cria.

Contrariamente aos outros viveiros em que as aves são mantidas aos casais, aqui são mantidas individualmente em câmaras de dimensão bastante mais reduzida.

Uma dimensão de 4 metros de comprimento por 2,5 de largura e 2,5 de altura é suficiente para alojar qualquer indivíduo do género falco ou accipiter.

As diferenças além da dimensão, residem em que a plataforma para o ninho é de menor dimensão , 70 x 70 centímetros parece-me adequado e que esta é colocada sensivelmente à altura do nosso peito, para melhor podermos inseminar, como veremos no capítulo 7. Reprodução Artificial de Aves de Presa.

Além destas diferenças só aconselho a existência de um poleiro ou plataforma junta à janela, tendo esta uma dimensão maior, 1 metro de largura por 50 centímetros de altura parece-me adequado, sendo esta janela mantida sempre aberta, para a ave se familiarizar o mais possível com as pessoas e o movimento.

No caso dos accipiteres impregnados considero importante a existência de uma pequena janela de dimensão suficiente para introduzirmos um braço e acedermos ao ninho, de modo a poder recolher o sémen, como veremos posteriormente no respectivo capítulo.

Não é objectivo deste capítulo efectuar uma análise detalhada dos vários componentes da alimentação que são fundamentais para as nossas aves de presa, pois seria impossível devido à grande variedade de aves de presa, assim como à grande variedade dos “habitats” de cada uma delas. Por exemplo, dois peregrinos, um da subespécie brookei e outro da subespécie pealei, estão habituados a presas completamente diferentes. Face a estas disparidades, resta-nos utilizar o bom senso e utilizar dois parâmetros fundamentais: variedade e integralidade, como veremos nos seguintes artigos.

A importância da alimentação é crucial para o sucesso reprodutivo das nossas aves de presa.

Independentemente da espécie das aves de presa que pretendermos alimentar há a considerar duas características fundamentais na selecção da alimentação, variedade e integralidade.

Por integralidade refiro-me essencialmente à utilização de presas que podem ser consumidas integralmente; considero esta questão importante pois como é sabido a composição química de determinada presa é diferenciada em cada órgão, completando-se no seu conjunto.

Devemos recusar toda a alimentação que seja constituída por partes de animais, como borrego, asas, pescoços, etc..; tendo como única excepção os pescoços de patos, desde que sejam fornecidos ocasionalmente, (2 a 3 vezes por mês) e pelo motivo de serem óptimos como “roedores”, evitando assim o tratamento do bico das aves, como veremos seguidamente; a selecção do pescoço de pato, em detrimento aos pescoços de galináceos, deve-se essencialmente por estes serem criados em semi-liberdade evitando assim a concentração excessiva de hormonas nos mesmos.

Por variedade, refiro-me essencialmente à possibilidade de variar semanalmente a alimentação das nossas aves, sugiro a consulta das Tabelas de alimentação da Vila Falco em tempo de cria (3) e fora do tempo de cria (4), para ter uma ideia da diferença das necessidades proteicas para cada uma das épocas.

Todos os alimentos que dou, são previamente congelados, preferencialmente ultracongelados, mas nunca durante mais de 3 meses, altura em que começam a perder qualidades.

Considero como alimentos de eleição para a maioria das aves de presa a ratazana (ratus norvegicus) a codorniz (Coturnix japonica) e o pombo (columba livia).

Como outros alimentos que se podem fornecer incluo o pinto do dia, o pescoço de pato, a codorniz do dia, o coelho (Oryctolagus cuniculus) e o hamster (Mesocricetus auratus).

Embora a maioria destes alimentos possa ser produzida particularmente em cativeiro, com relativa facilidade, não compete falar neste manual sobre a produção dos mesmos, pois existem vários publicações da especialidade sobre o tema e além disso é possível actualmente adquirir este alimento a fornecedores especializados para o efeito em condições porventura mais interessantes do que a própria produção caseira.

A ratazana é um alimento de alto teor proteico que forneço a todo o tipo de aves, desde a grande águia ao mais pequeno falcão (falco subbuteo) ou accipiter (accipiter nisus); tendo unicamente em atenção em seleccionar o tamanho dos mesmos, de acordo com o seu destino; fornecendo ratazanas de 200 ou mais gramas às grandes águias, com cerca de 100 gramas aos grandes falcões e açores e com 30-50 gramas às pequenas aves.

Considero de extrema importância dar a ratazana inteira, pois deste modo mantêm por mais tempo intactas todas as suas propriedades interiores e o exercício do seu esventramento pelas aves é bastante importante para manter os bicos em forma perfeita.

Qualquer ave de presa habitua-se a retirar todos os nutrientes, deixando no final somente a pele e os intestinos.

A única desvantagem que encontro na ratazana é o seu custo excessivo, mas considero que a tendência é baixar substancialmente de preço.

A codorniz é sem dúvida o alimento perfeito para as aves de presa, alto teor proteico, tamanho ideal para ser consumida inteira por um falcão médio e custo moderado.

O ideal para qualquer criador é contactar um criador profissional de codornizes e efectuar um acordo comercial de aquisição, não só das codornizes de 4-5 semanas, mas também dos reprodutores e eventualmente, em algumas situações, das codornizes do dia.

As codornizes do dia ou codornizes acabadas de nascer, são muitas vezes adquiridas a custo bastante reduzido, quando falha uma encomenda numa determinada semana ao criador e optando este pela morte das mesmas, logo a seguir à eclosão, cortando assim os custos da alimentação das mesmas; normalmente são milhares de codornizes que podem ser adquiridas a um preço quase simbólico ou então pode-se chegar a um acordo de as adquirir com uma semana de vida, o que é também muito interessante. Estas codornizes são essencialmente destinadas a todas as aves de presa com excepção das grandes águias que parecem não apresentar grande interesse nelas.

As codornizes reprodutoras são codornizes com cerca de 6 meses de vida e que estão no declínio da sua capacidade de postura, deixando de ter interesse económico para o produtor de codornizes podendo ser adquiridas a um custo quase simbólico.

Estas codornizes têm uma constituição mais proteica do que as de 4 semanas, têm também o dobro do tamanho o que as torna bastante mais rentáveis.

A única desvantagem que estas codornizes apresentam é darem-nos um pouco mais de trabalho, pois é conveniente retirar-lhes a gordura visível; normalmente a estas codornizes, corto-lhes a cabeça e as patas, retiro-lhe os intestinos e moela, deixando ficar o fígado e coração, corto-as longitudinalmente ao meio e dou assim cada metade a cada falcão médio.

As codornizes de 4 semanas são as que vão regularmente para os supermercados, portanto são vendidas a um preço mais elevado.

Tenho o cuidado de solicitar ao meu fornecedor que as alimente durante a última semana exclusivamente a farinha de milho moída tradicionalmente e sem qualquer tipo de aditivos. Todas as aves têm uma predilecção especial por este alimento, preferindo-o, conjuntamente com o pombo, a qualquer outro.

Estas codornizes são dadas inteiras, sem retirar quaisquer vísceras e à semelhança das outras, são também dadas com penas.

O pombo tem aliado à sua excelente qualidade como alimento, um grande risco, pois como é sabido, os pombos vivem habitualmente com uma série de enfermidades, que só por si são fatais para algumas aves de presa; embora dê regularmente pombos a todas as aves de presa, tenho o cuidado de aos gerifaltes (falco rusticolus) dar somente a partir do 1º ano de vida, altura em que estão em melhor condição imunitária para combater qualquer contratempo.

Se a selecção de cada fornecedor é fundamental, para o pombo torna-se crucial; actualmente só dou ás minhas aves pombos que são produzidos em França exclusivamente para consumo humano, são pombos de grande qualidade e mesmo assim, de tempos a tempos, rejeito alguns.

Este alimento é completamente esviscerado, cortadas patas e cabeça e à semelhança da codorniz reprodutora, cortado longitudinalmente em metades.

O custo é uma desvantagem pois é significativamente superior ao da codorniz mas inferior à ratazana.

Como foi referido anteriormente, utilizo o pescoço de pato, quase ocasionalmente e sempre no período de Julho a Dezembro, isto é fora da época da cria.

A vantagem deste alimento é funcionar essencialmente como roedor proporcionando os cuidados necessários ao bico, pois a carne é de difícil extracção devido à grande quantidade de massa muscular; não substituo o pescoço de pato por qualquer outro pescoço de ave devido à grande concentração de hormonas nas aves que são criadas em espaços demasiado fechados.

O coelho é um alimento que destino essencialmente às águias e embora seja um alimento relativamente pouco proteico parece ser de grande interesse para estas aves e estas parecem também beneficiar bastante com este alimento.

A grande vantagem é também o seu baixo custo, desde que seja efectuado um acordo com um produtor de coelhos pois muitos deles são recusados para entrarem no circuito comercial, somente por terem uma dimensão inferior à requerida.

O coelho é também fornecido inteiro.

É de rejeitar qualquer coelho bravo ou qualquer presa do estado selvagem, pois embora possam não ser abatidas a tiro de caçadeira, não há garantias que não tenham no seu interior vestígios de chumbo, o que seria fatal para qualquer ave de presa.

O Hamster, com composição semelhante ao coelho, é o seu equivalente para as aves de presa de dimensão inferior à águia. À semelhança do coelho, também não deve ser dado mais do que uma vez por semana e é também fornecido inteiro.

Finalmente, refiro o pinto do dia que apesar de ser o alimento mais frequente dado por muitos criadores, não apresenta, em meu entender, nenhumas condições para ser considerado uma alimentação base.

O pinto do dia utilizado como alimentação, não é mais do que o macho da galinha poedeira, que não tem portanto valor comercial para a alimentação humana, devido ao longo tempo que necessita para se desenvolver; normalmente estes pintos são sacrificados para fazer farinha, pois podem ser facilmente diferenciados machos e fêmeas, os machos nascem de cor amarela e as fêmeas de cor castanha.

Actualmente algumas empresas já fazem acordos com estes aviários ultra congelando os pintos e fazendo-os entrar no circuito comercial para a alimentação de aves de presa e outros animais.

Em meu entender, o máximo de vezes que esta alimentação deve ser dada é duas vezes por semana e somente fora do período de reprodução (Janeiro a Junho).

A grande vantagem é ser bastante do agrado das aves, ser muito prático de dar, 3 a 4 pintos por ave e ser mais nutritivo do que um pinto normal, pois na génese da galinha poedeira não é necessário um rápido crescimento tendo portanto uma composição mais saudável.

A grande desvantagem é ter uma alta percentagem de colesterol o que não é aconselhável para o normal stress existente nas aves em cativeiro; para obviar esta situação, pode-se sempre extrair o saco vitelino diminuindo assim a quantidade de colesterol.

A outra grande desvantagem, é comum a todas as presas jovens, pois têm uma percentagem de água no corpo, muito superior às aves adultas e uma percentagem proteica bastante inferior.

Contrariamente aos mamíferos, as aves não perdem liquido pela pele (suor) nem isoladamente pela urina mas somente conjuntamente com as fezes o que pode determinar a perca de líquidos somente 2 a 3 vezes por dia, acumulando-se o excedente em determinados órgãos internos dando origem a enfermidades graves.

Finalmente, quero frisar a não necessidade de utilização de suplementos vitamínicos com excepção de alguns suplementos naturais.

Embora existem muitos produtos no mercado com objectivos variados (aumentar fertilidade, acelerar e melhorar a muda, aumentar a estamina, etc.), na verdade não conheço nenhuma prova científica que demonstre que as aves de presa sintetizam eficazmente os referidos aditivos de modo directo; isto é, parece ser preferível fornecer os respectivos aditivos às presas, estas sintetizarem os mesmos sendo posteriormente ingeridos pelas aves de presa na sua alimentação regular.

Referi algumas excepções, pois utilizo há bastantes anos, o óleo de gérmen de trigo adicionado à alimentação das aves com um sucesso considerável.

Contudo, o objectivo deste aditivo é essencialmente olear o canal do ovioduto, facilitando deste modo as posturas e fornecendo simultaneamente uma série de vitaminas naturais, úteis no processo reprodutivo.

Contudo, considero muito importante a dosagem, pois em excesso pode provocar a impermeabilização da membrana do ovo, dificultando assim a perca de peso do mesmo e consequentemente a eclosão.

A dosagem que utilizo são 5 gotas colocadas dentro, por exemplo de uma codorniz, dadas três vezes por semana e 2 semanas antes da previsão da postura, parando de dar logo que é posto o 1º ovo.

Depois de seleccionarmos o tipo de alimento que vamos habituar as nossas aves a consumir, é importante garantirmos que estas se familiarizem plenamente com o consumo dos mesmos, antes da época da cria, altura em que podemos, sem consequências graves para o sucesso reprodutivo, entrar dentro dos viveiros e retirar o excesso de alimentos.

Embora alguns alimentos sejam mais do agrado do que outros, é importante conhecer cada casal reprodutor nesta área, tendo o cuidado de inicialmente não mudar diariamente de alimento pois haveria a tendência de não comer os de menor agrado; por este motivo, considero importante comerem um determinado tipo de alimento semanalmente e mudar de tipo de alimento na semana seguinte; só depois de garantida esta situação é que passaremos a variar de alimento diariamente, tendo sempre o cuidado de no dia anterior aquele que vai ser fornecido o alimento de menor agrado, dar uma quantidade inferior à habitual.

Segundo a minha experiência, os alimentos preferidos são o pombo e a codorniz e o pinto sendo os menos apetecíveis a ratazana e o hamster.

A Quantidade de alimento varia não só de espécie mas também de individuo e em cada individuo os consumos são bastante diferentes consoante a época do ano.

Considero que é bastante mais grave o excesso de comida do que a comida a menos e procuro sempre cumprir uma regra de ouro, a quantidade de comida correcta é aquela que for consumida num período máximo de 3 horas; este pode ser o ponto de partida para aferirmos a quantidade de comida necessária e efectuar a nossa tabela de alimentação.

No final deste capítulo, somente para orientação, pode encontrar as tabelas utilizadas actualmente na Vila Falco.

A periodicidade de fornecimento de alimentação fora da época de cria será de uma vez por dia, deixando um dia por semana para dar uma quantidade bastante mais reduzida de alimento; ou se tiver oportunidade duas vezes por dia, uma de manhã e outra antes do anoitecer, podendo deste modo controlar melhor as quantidades correctas de alimentos, correndo também menos riscos em existirem excedentes.

Durante a época da cria e até estarem concluídas as posturas, é conveniente dar comida 3 ou 4 vezes por dia, aumentando assim as possibilidades de transferência de comida no casal e posterior cópula, contribuindo assim para o nosso objectivo final, uma maior fertilidade.

Não disponivel

Não disponivel

Apesar de no nosso hemisfério a época de reprodução de aves de presa em cativeiro, seja grosso modo de Janeiro a Junho, com poucas excepções como é o caso do Ógea (falco subbuteo) e do peregrino calidus (falco peregrinus calidus) que se prolongam até Agosto, e esta ser de facto a época de mais trabalho, não podemos desprezar a quantidade de tarefas de manutenção que só podemos desempenhar no segundo semestre, assim como a construção de novas instalações, pois é de boa prática manter um bom nível de silencio, durante a época reprodutiva.

Quando termina o período de reprodução, começo o trabalho de limpeza dos viveiros, transferindo casal a casal para o viveiro que tenho disponível, durante esta transferência tenho o cuidado de analisar o aspecto geral da ave, cortar excessos de bicos e eventualmente unhas se estiverem demasiadamente longas, utilizando um simples corta unhas e afiando novamente o bico com o recurso a uma pequena esmeriladora adaptada a um mini berbequim.

Verifico também se cada ave tem ectoparasitas aplicando-lhe, caso necessário um spray apropriado; normalmente utilizo um spray chamado ACARADUST que é um composto à base de butóxido de peroponilo; nesta operação, assim como na do corte do bico e unhas deverá ser previamente colocado um caparão na ave, diminuindo-lhe assim o stress.

Depois de o casal ser mudado para o viveiro provisório, deixo-as estar um dia sem comida e no dia seguinte dou um pinto a cada ave, ao qual foi previamente injectado 0,02ml (2º traço de uma seringa de insulina) de Ivomec para bovinos, certificando-me que cada ave come efectivamente só um pinto, o que facilmente se consegue, deitando primeiramente um pinto e quando uma começar a comer, deitar o outro.

O Ivomec tem como principio activo a Ivermecticina que, quanto a mim, é o produto por excelência, para controlar o excesso de parasitas internos das nossas aves.

Repito esta dose cerca de seis meses depois ou nos últimos dias de Dezembro e antes da próxima época de reprodução

Seguidamente passaremos então à limpeza do viveiro, utilizando sequencialmente o seguinte procedimento:

1. Retirar as câmaras de circuito interno, efectuando-lhes a manutenção necessária.

2. Retirar todas as partes de astroturfa que irão ser substituídas

3. Utilizar um Soprador de Jardim soprando todas as penas e restos de comida para uma determinada zona, onde serão melhor aspirados.

4. Seguidamente proceder à Lavagem a alta pressão com detergente revolvendo todas as pedras

5. Depois da lavagem estar concluída passaremos abundantemente com água e deixaremos secar durante esse dia.

6. No dia seguinte, utilizando um pulverizador eléctrico ou manual, procederemos à desinfecção, utilizando um desinfectante natural e biodegradável, por exemplo, Virkon-S ou Limoseptic nas porções referidas nas embalagens.

7. Deixo o produto actuar cerca de dois dias, coloco a astroturfa nova nos locais necessários, assim como o CCTV regulando-o antes da introdução das aves, repetindo esta operação para todos os viveiros.


É também neste período que efectuo a manutenção da UPS e respectivas baterias, assim como das incubadoras, eclosoras e UCI’s substituindo todos os filtros.

Cerca de um mês antes do início da época de cria, volto a testar todos os equipamentos, incluindo limpeza dos filtros do ar condicionado assim como calibragem de todos os termómetros e higrómetros.

Será também nesta altura que deveremos adquirir as peças sobresselentes necessárias aos nossos equipamentos de incubação, como motores, ventoinhas, termóstatos etc.

A Reprodução em cativeiro de aves de presa tem actualmente um futuro bastante incerto como actividade económica, dependendo de demasiados factores para podermos efectuar uma previsão credível sobre a sua evolução. Estes factores, dos quais destaco a subsistência da falcoaria como processo de caça apresentam sinais de grande incerteza, contudo, o factor de maior perigosidade, por ser também bastante objectivo e quantificável, é a crescente diminuição da diversidade genética dos reprodutores, como veremos neste ponto.

Quando me comecei a interessar verdadeiramente pela falcoaria, a reprodução em cativeiro de aves de presa, era pouco mais que uma ilusão, uns anos depois passou a ser apanágio de alguns iluminados em todo o mundo, vendendo as aves por preços proibitivos e controlando naturalmente todo o mercado.

Muito caminho se percorreu até ao dia de hoje em que qualquer aspirante a falcoeiro tem acesso a um largo leque de aves de presa a preços muito interessantes.

Esta sobre oferta de aves de presa, deve-se essencialmente, como já referi no início deste manual, à proliferação de criadores, cujo único objectivo é simplesmente criar para se entreterem com um ou dois casais, não se preocupando com a qualidade nem com os custos, pois fazem-no simplesmente por prazer, vendendo posteriormente a sua produção a qualquer preço por não terem espaço para o seu alojamento.

Esta situação obriga a que os criadores profissionais se esquivem a produzir muitos tipos de aves, pois cairiam rapidamente em falência, pois teriam que vender as aves muito abaixo dos custos de produção.

Paradoxalmente, esta situação irá obrigar os criadores profissionais a produzir aves de muito elevada qualidade, quer em tipo quer em genética, podendo deste modo obterem uma diferenciação, fundamental ao seu sucesso.

Esta situação parece já estar a ocorrer com algumas espécies de falcões como gerifaltes brancos e negros, peregrinos pealei, calidus e shains de nuca vermelha e alguns accipiteres como os gaviões negros, açores russos e Albidus, aves estas que actualmente são exclusivamente reproduzidas por um número muito restrito de criadores profissionais.

Acredito ainda que serão introduzidas no mercado, a curto prazo, aves originárias de alguns criadores russos e mais a longo prazo, aves originárias de criadores da América do Sul, que irão sem dúvida revolucionar o tipo de espécies utilizadas na Europa quer de baixo como de alto voo.

Onde acredito que a reprodução em cativeiro irá sofrer um grande revés senão mesmo o seu desaparecimento a longo prazo, tem a haver essencialmente com a pequena diversidade genética que algumas espécies estão a enfrentar, essa diferenciação irá sempre diminuir até ao momento em que seja permitido aos criadores a introdução de uma nova genética através da introdução de espécies selvagens.

Para que isto aconteça, será necessário que os responsáveis pela conservação ao nível global, entendam o importante papel da reprodução em cativeiro de aves de presa  para aliviar a pressão sobre as populações selvagens, com especial incidência nas utilizadas no mundo árabe, permitindo assim a introdução de indivíduos selvagens nos projectos de cria.

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