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Não é objectivo deste capítulo efectuar uma análise detalhada dos vários componentes da alimentação que são fundamentais para as nossas aves de presa, pois seria impossível devido à grande variedade de aves de presa, assim como à grande variedade dos “habitats” de cada uma delas. Por exemplo, dois peregrinos, um da subespécie brookei e outro da subespécie pealei, estão habituados a presas completamente diferentes. Face a estas disparidades, resta-nos utilizar o bom senso e utilizar dois parâmetros fundamentais: variedade e integralidade, como veremos nos seguintes artigos.
A importância da alimentação é crucial para o sucesso reprodutivo das nossas aves de presa. Independentemente da espécie das aves de presa que pretendermos alimentar há a considerar duas características fundamentais na selecção da alimentação, variedade e integralidade. Por integralidade refiro-me essencialmente à utilização de presas que podem ser consumidas integralmente; considero esta questão importante pois como é sabido a composição química de determinada presa é diferenciada em cada órgão, completando-se no seu conjunto. Devemos recusar toda a alimentação que seja constituída por partes de animais, como borrego, asas, pescoços, etc..; tendo como única excepção os pescoços de patos, desde que sejam fornecidos ocasionalmente, (2 a 3 vezes por mês) e pelo motivo de serem óptimos como “roedores”, evitando assim o tratamento do bico das aves, como veremos seguidamente; a selecção do pescoço de pato, em detrimento aos pescoços de galináceos, deve-se essencialmente por estes serem criados em semi-liberdade evitando assim a concentração excessiva de hormonas nos mesmos. Por variedade, refiro-me essencialmente à possibilidade de variar semanalmente a alimentação das nossas aves, sugiro a consulta das Tabelas de alimentação da Vila Falco em tempo de cria (3) e fora do tempo de cria (4), para ter uma ideia da diferença das necessidades proteicas para cada uma das épocas. Todos os alimentos que dou, são previamente congelados, preferencialmente ultracongelados, mas nunca durante mais de 3 meses, altura em que começam a perder qualidades. Considero como alimentos de eleição para a maioria das aves de presa a ratazana (ratus norvegicus) a codorniz (Coturnix japonica) e o pombo (columba livia). Como outros alimentos que se podem fornecer incluo o pinto do dia, o pescoço de pato, a codorniz do dia, o coelho (Oryctolagus cuniculus) e o hamster (Mesocricetus auratus). Embora a maioria destes alimentos possa ser produzida particularmente em cativeiro, com relativa facilidade, não compete falar neste manual sobre a produção dos mesmos, pois existem vários publicações da especialidade sobre o tema e além disso é possível actualmente adquirir este alimento a fornecedores especializados para o efeito em condições porventura mais interessantes do que a própria produção caseira. A ratazana é um alimento de alto teor proteico que forneço a todo o tipo de aves, desde a grande águia ao mais pequeno falcão (falco subbuteo) ou accipiter (accipiter nisus); tendo unicamente em atenção em seleccionar o tamanho dos mesmos, de acordo com o seu destino; fornecendo ratazanas de 200 ou mais gramas às grandes águias, com cerca de 100 gramas aos grandes falcões e açores e com 30-50 gramas às pequenas aves. Considero de extrema importância dar a ratazana inteira, pois deste modo mantêm por mais tempo intactas todas as suas propriedades interiores e o exercício do seu esventramento pelas aves é bastante importante para manter os bicos em forma perfeita. Qualquer ave de presa habitua-se a retirar todos os nutrientes, deixando no final somente a pele e os intestinos. A única desvantagem que encontro na ratazana é o seu custo excessivo, mas considero que a tendência é baixar substancialmente de preço. A codorniz é sem dúvida o alimento perfeito para as aves de presa, alto teor proteico, tamanho ideal para ser consumida inteira por um falcão médio e custo moderado. O ideal para qualquer criador é contactar um criador profissional de codornizes e efectuar um acordo comercial de aquisição, não só das codornizes de 4-5 semanas, mas também dos reprodutores e eventualmente, em algumas situações, das codornizes do dia. As codornizes do dia ou codornizes acabadas de nascer, são muitas vezes adquiridas a custo bastante reduzido, quando falha uma encomenda numa determinada semana ao criador e optando este pela morte das mesmas, logo a seguir à eclosão, cortando assim os custos da alimentação das mesmas; normalmente são milhares de codornizes que podem ser adquiridas a um preço quase simbólico ou então pode-se chegar a um acordo de as adquirir com uma semana de vida, o que é também muito interessante. Estas codornizes são essencialmente destinadas a todas as aves de presa com excepção das grandes águias que parecem não apresentar grande interesse nelas. As codornizes reprodutoras são codornizes com cerca de 6 meses de vida e que estão no declínio da sua capacidade de postura, deixando de ter interesse económico para o produtor de codornizes podendo ser adquiridas a um custo quase simbólico. Estas codornizes têm uma constituição mais proteica do que as de 4 semanas, têm também o dobro do tamanho o que as torna bastante mais rentáveis. A única desvantagem que estas codornizes apresentam é darem-nos um pouco mais de trabalho, pois é conveniente retirar-lhes a gordura visível; normalmente a estas codornizes, corto-lhes a cabeça e as patas, retiro-lhe os intestinos e moela, deixando ficar o fígado e coração, corto-as longitudinalmente ao meio e dou assim cada metade a cada falcão médio. As codornizes de 4 semanas são as que vão regularmente para os supermercados, portanto são vendidas a um preço mais elevado. Tenho o cuidado de solicitar ao meu fornecedor que as alimente durante a última semana exclusivamente a farinha de milho moída tradicionalmente e sem qualquer tipo de aditivos. Todas as aves têm uma predilecção especial por este alimento, preferindo-o, conjuntamente com o pombo, a qualquer outro. Estas codornizes são dadas inteiras, sem retirar quaisquer vísceras e à semelhança das outras, são também dadas com penas. O pombo tem aliado à sua excelente qualidade como alimento, um grande risco, pois como é sabido, os pombos vivem habitualmente com uma série de enfermidades, que só por si são fatais para algumas aves de presa; embora dê regularmente pombos a todas as aves de presa, tenho o cuidado de aos gerifaltes (falco rusticolus) dar somente a partir do 1º ano de vida, altura em que estão em melhor condição imunitária para combater qualquer contratempo. Se a selecção de cada fornecedor é fundamental, para o pombo torna-se crucial; actualmente só dou ás minhas aves pombos que são produzidos em França exclusivamente para consumo humano, são pombos de grande qualidade e mesmo assim, de tempos a tempos, rejeito alguns. Este alimento é completamente esviscerado, cortadas patas e cabeça e à semelhança da codorniz reprodutora, cortado longitudinalmente em metades. O custo é uma desvantagem pois é significativamente superior ao da codorniz mas inferior à ratazana. Como foi referido anteriormente, utilizo o pescoço de pato, quase ocasionalmente e sempre no período de Julho a Dezembro, isto é fora da época da cria. A vantagem deste alimento é funcionar essencialmente como roedor proporcionando os cuidados necessários ao bico, pois a carne é de difícil extracção devido à grande quantidade de massa muscular; não substituo o pescoço de pato por qualquer outro pescoço de ave devido à grande concentração de hormonas nas aves que são criadas em espaços demasiado fechados. O coelho é um alimento que destino essencialmente às águias e embora seja um alimento relativamente pouco proteico parece ser de grande interesse para estas aves e estas parecem também beneficiar bastante com este alimento. A grande vantagem é também o seu baixo custo, desde que seja efectuado um acordo com um produtor de coelhos pois muitos deles são recusados para entrarem no circuito comercial, somente por terem uma dimensão inferior à requerida. O coelho é também fornecido inteiro. É de rejeitar qualquer coelho bravo ou qualquer presa do estado selvagem, pois embora possam não ser abatidas a tiro de caçadeira, não há garantias que não tenham no seu interior vestígios de chumbo, o que seria fatal para qualquer ave de presa. O Hamster, com composição semelhante ao coelho, é o seu equivalente para as aves de presa de dimensão inferior à águia. À semelhança do coelho, também não deve ser dado mais do que uma vez por semana e é também fornecido inteiro. Finalmente, refiro o pinto do dia que apesar de ser o alimento mais frequente dado por muitos criadores, não apresenta, em meu entender, nenhumas condições para ser considerado uma alimentação base. O pinto do dia utilizado como alimentação, não é mais do que o macho da galinha poedeira, que não tem portanto valor comercial para a alimentação humana, devido ao longo tempo que necessita para se desenvolver; normalmente estes pintos são sacrificados para fazer farinha, pois podem ser facilmente diferenciados machos e fêmeas, os machos nascem de cor amarela e as fêmeas de cor castanha. Actualmente algumas empresas já fazem acordos com estes aviários ultra congelando os pintos e fazendo-os entrar no circuito comercial para a alimentação de aves de presa e outros animais. Em meu entender, o máximo de vezes que esta alimentação deve ser dada é duas vezes por semana e somente fora do período de reprodução (Janeiro a Junho). A grande vantagem é ser bastante do agrado das aves, ser muito prático de dar, 3 a 4 pintos por ave e ser mais nutritivo do que um pinto normal, pois na génese da galinha poedeira não é necessário um rápido crescimento tendo portanto uma composição mais saudável. A grande desvantagem é ter uma alta percentagem de colesterol o que não é aconselhável para o normal stress existente nas aves em cativeiro; para obviar esta situação, pode-se sempre extrair o saco vitelino diminuindo assim a quantidade de colesterol. A outra grande desvantagem, é comum a todas as presas jovens, pois têm uma percentagem de água no corpo, muito superior às aves adultas e uma percentagem proteica bastante inferior. Contrariamente aos mamíferos, as aves não perdem liquido pela pele (suor) nem isoladamente pela urina mas somente conjuntamente com as fezes o que pode determinar a perca de líquidos somente 2 a 3 vezes por dia, acumulando-se o excedente em determinados órgãos internos dando origem a enfermidades graves. Finalmente, quero frisar a não necessidade de utilização de suplementos vitamínicos com excepção de alguns suplementos naturais. Embora existem muitos produtos no mercado com objectivos variados (aumentar fertilidade, acelerar e melhorar a muda, aumentar a estamina, etc.), na verdade não conheço nenhuma prova científica que demonstre que as aves de presa sintetizam eficazmente os referidos aditivos de modo directo; isto é, parece ser preferível fornecer os respectivos aditivos às presas, estas sintetizarem os mesmos sendo posteriormente ingeridos pelas aves de presa na sua alimentação regular. Referi algumas excepções, pois utilizo há bastantes anos, o óleo de gérmen de trigo adicionado à alimentação das aves com um sucesso considerável. Contudo, o objectivo deste aditivo é essencialmente olear o canal do ovioduto, facilitando deste modo as posturas e fornecendo simultaneamente uma série de vitaminas naturais, úteis no processo reprodutivo. Contudo, considero muito importante a dosagem, pois em excesso pode provocar a impermeabilização da membrana do ovo, dificultando assim a perca de peso do mesmo e consequentemente a eclosão. A dosagem que utilizo são 5 gotas colocadas dentro, por exemplo de uma codorniz, dadas três vezes por semana e 2 semanas antes da previsão da postura, parando de dar logo que é posto o 1º ovo.
Depois de seleccionarmos o tipo de alimento que vamos habituar as nossas aves a consumir, é importante garantirmos que estas se familiarizem plenamente com o consumo dos mesmos, antes da época da cria, altura em que podemos, sem consequências graves para o sucesso reprodutivo, entrar dentro dos viveiros e retirar o excesso de alimentos. Embora alguns alimentos sejam mais do agrado do que outros, é importante conhecer cada casal reprodutor nesta área, tendo o cuidado de inicialmente não mudar diariamente de alimento pois haveria a tendência de não comer os de menor agrado; por este motivo, considero importante comerem um determinado tipo de alimento semanalmente e mudar de tipo de alimento na semana seguinte; só depois de garantida esta situação é que passaremos a variar de alimento diariamente, tendo sempre o cuidado de no dia anterior aquele que vai ser fornecido o alimento de menor agrado, dar uma quantidade inferior à habitual. Segundo a minha experiência, os alimentos preferidos são o pombo e a codorniz e o pinto sendo os menos apetecíveis a ratazana e o hamster. A Quantidade de alimento varia não só de espécie mas também de individuo e em cada individuo os consumos são bastante diferentes consoante a época do ano. Considero que é bastante mais grave o excesso de comida do que a comida a menos e procuro sempre cumprir uma regra de ouro, a quantidade de comida correcta é aquela que for consumida num período máximo de 3 horas; este pode ser o ponto de partida para aferirmos a quantidade de comida necessária e efectuar a nossa tabela de alimentação. No final deste capítulo, somente para orientação, pode encontrar as tabelas utilizadas actualmente na Vila Falco. A periodicidade de fornecimento de alimentação fora da época de cria será de uma vez por dia, deixando um dia por semana para dar uma quantidade bastante mais reduzida de alimento; ou se tiver oportunidade duas vezes por dia, uma de manhã e outra antes do anoitecer, podendo deste modo controlar melhor as quantidades correctas de alimentos, correndo também menos riscos em existirem excedentes. Durante a época da cria e até estarem concluídas as posturas, é conveniente dar comida 3 ou 4 vezes por dia, aumentando assim as possibilidades de transferência de comida no casal e posterior cópula, contribuindo assim para o nosso objectivo final, uma maior fertilidade.
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